QUAIS SERÃO OS MAIORES ATIVOS DAS ORGANIZAÇÕES NO MOMENTO PÓS COVID-19?

Fábio Rocha Especialista em Carreira, Consultor nas áreas de Liderança e Cultura Organizacional, Professor, Coach e Diretor-Executivo da Damicos Consultoria em Liderança e Sustentabilidade. fabio@damicos.com.br
Manuela Falcão Gestora em Marketing, especialista em gestão empresarial e Fundadora e Consultora na Realize Consultoria em Marketing. manuelafalcaoporto@gmail.com
 
Além de pandemia e quarentena, um dos temas mais discutidos na atualidade é “o mundo nunca mais será o mesmo depois da pandemia do Covid-19”.
A maioria dessas mudanças, sejam elas no campo das relações de trabalho, consumo, cuidados com a saúde e até mesmo no campo dos valores e dos hábitos cotidianos, já acontecem a pelo menos 15 anos.
A ideia aqui não é dar foco no que já mudou ou vai mudar. Mas sim no quanto as organizações e seus líderes estão preparados para o que podemos chamar de “Momento Pós Covid-19”.
Comecemos nos perguntando: minha Organização está preparada? Eu estou preparada(o)? Antes vale refletirmos sobre como estamos atuando na quarentena:

  • Se conseguimos tomar as medidas emergenciais necessárias, focando na sobrevivência do negócio e na manutenção dos postos de trabalho, já começamos muito bem;
  • Se ainda fomos capazes de readequar, replanejar e reestruturar o negócio, pensando um pouco mais a médio prazo, nos saímos ainda melhores;
  • E se para além dessas ações práticas que exigem distintas competências e habilidades, conseguimos nos (re)conectar com as pessoas, sentindo junto com elas os temores, as dores e esperanças de dias melhores, compartilhando dos mesmos valores em meio a essa crise tão cheia de aprendizados, aí sim, talvez já estejamos vivenciando e praticando alguns dos maiores Ativos das organizações depois que essa pandemia passar.

É possível dizer que para lidar com uma situação tão adversa e serem bem sucedidas, as organizações precisariam ter uma base sólida. Essa base pode ser constituída por uma boa situação financeira, um bom market share (participação no mercado), uma equipe eficiente e um propósito forte, além de crenças e valores claros, compartilhados por todos na organização. Mas então só as empresas sólidas têm chances de atravessar bem essa crise? A resposta é sim e não.
Observando o exemplo da Magazine Luiza, que ocupa o segundo lugar em lembrança dos consumidores durante a pandemia, segundo uma pesquisa divulgada pela revista digital Propmark*, e que também lidera em boa imagem na crise, segundo o Estadão**, veremos muitos pontos positivos que demonstram uma vivência proveitosa da crise:

  • Rapidez na tomada de decisões emergenciais – Magalu implementou o frete grátis para todo Brasil e cedeu sua loja virtual para pequenos negócios e pessoas físicas;
  • Esforços reais para não demitir pessoas;
  • Posicionamento claro dos seus maiores líderes, colaborando com conteúdos relevantes na internet, criando e participando de movimentos que ajudam o mercado e a sociedade a fazerem uma melhor leitura do cenário e tomarem decisões mais assertivas;
  • Protagonismo em ajudar quem precisa, seja através de doações para São Paulo, por exemplo, junto com um grupo de empresas que já doou 400 milhões de reais para o governo paulista*** ou por meio de outras ações pulverizadas também no campo social.

Magazine Luiza é uma empresa com base sólida que chegará no “Momento Pós Covid-19” ainda mais forte.
Mas o que chama atenção nessa crise é que muitos negócios pequenos e ainda sem solidez financeira ou participação no mercado, poderão sair dela muito mais fortes. O grande segredo são os Ativos, como: ter um propósito inspirador (razão de existir do negócio), líderes criativos, sensibilidade e espírito de cooperação.
Então finalmente perguntemos: quais serão os maiores Ativos das organizações no momento pós crise?”
Vamos definir Ativos de uma organização como elementos positivos tangíveis ou intangíveis que compõem o DNA da empresa; esses elementos podem ser relacionados a ideologia, identidade, gestão, cultura e processos e devem ser usados para potencializar o sucesso e a perpetuidade do negócio. Os Ativos incluem elementos formais e informais, como políticas, diretrizes, conhecimentos e até lições aprendidas.
 
Escolhemos três Ativos que chegarão com prestígio ao “Momento Pós Covid-19”.
COOPERAÇÃO | CRIATIVIDADE | SENSIBILIDADE.
Imaginemos em que cenário por exemplo, uma cervejaria criaria uma campanha para ajudar seus clientes – restaurantes, a não demitirem funcionários nem fecharem suas portas? É o que a Stella Artois, marca da Ambev, fez: a campanha “Apoie um Restaurante” incentiva consumidores a comprarem um voucher de cinquenta reais válido por um ano, e a cervejaria dobra esse voucher para cem reais. Em outras palavras, a marca de cerveja vai doar 50% do valor dos vouchers comprados. Isso é espírito de Cooperação, Criatividade e Sensibilidade.
 
COOPERAÇÃO
Será um Ativo cada vez mais fundamental. Afinal os habitantes desse novo mundo que se organiza, já entenderam que “estamos todos no mesmo barco” e que nesse cenário, se não pensarmos no bem estar de todos, teremos poucas chances de sobreviver. Por ser uma organização sólida, a Ambev poderia ter optado por esperar a crise passar, mas ela demonstra através de inúmeras ações em benefício da sociedade, que não é suficiente que ela esteja bem; se o mercado em que ela está inserida não estiver bem, se o país não estiver bem, se seus clientes não estiverem bem, tudo perde o sentido.
Essa crise nos convida para colocarmos sensibilidade na mesa das reuniões e transformarmos isso em Cooperação dentro dos negócios.
 
CRIATIVIDADE
Num cenário hiper conectado de digitalização da economia, este será outro Ativo cada vez mais fundamental para o desenvolvimento e a perpetuidade das organizações. O publicitário Bruno Brux disse na revista Meio e Mensagem****, que “criatividade é resolver problemas, e problemas é o que não falta nesse momento”. Mas ele alerta que “sem se colocar no lugar do outro, a criatividade passa a ser só um capricho”.
O Ativo Criatividade chegará ao “Pós Covid-19” renovado, com o status de solucionador de problemas com sensibilidade; por isso não será suficiente ter uma ideia genial, mas sim pensar em como essa ideia contribuirá para a melhoria de vida das pessoas.
O ambiente organizacional e a qualidade do exercício da liderança são os grandes impulsionadores e veículos da Criatividade, assim como de todos os outros Ativos de uma empresa. Esse ambiente, que é maior do que o clima organizacional passageiro, é representado pela qualidade das relações entre empresas e seus colaboradores, líderes e liderados, e passa também por cultivar nas organizações um “mindset de crescimento” – mentalidade que busca constantemente novos aprendizados, abre-se para reinventar processos, produtos e serviços, colocando o negócio em condições de atuar frente a cenários totalmente novos e imprevisíveis.
Por fim, o terceiro Ativo que escolhemos, à luz de alguns dos ativos mais tradicionais que conhecemos, como Ética e Transparência, talvez não tenha nem a licença para ser chamado de Ativo. Mas sim, a Sensibilidade é um elemento positivo intangível que pode influenciar fortemente o sucesso de uma empresa na atualidade.
 
SENSIBILIDADE
Quando falamos em Sensibilidade como Ativo, estamos falando de duas vertentes: uma no campo da Gestão – que é liderar, tomar decisões e definir o modelo e até o rumo do negócio “de forma mais sensível”; e a outra é a vertente da Saúde das pessoas dentro das organizações – fator que deve ganhar status e investimentos nas áreas de Pessoas das empresas.
Uma preocupação durante a quarentena tem sido a saúde mental dos colaboradores, especialmente em home office. Por isso inúmeras empresas têm promovido e incentivado práticas como mindfulness, Yoga e até “bate papos descontraídos sobre temas diversos”, inclusive em carga horária de trabalho, com o intuito de cuidar do corpo, da mente e das emoções dos seus colaboradores.
Para Nairah Matsuoka, da revista HSM, “o Marketing foi a questão corporativa mais importante dos anos 90, a Gestão do Conhecimento foi a bola da vez nos anos 00, a Inovação foi a palavra dos anos 10 e a década de 20 será integralmente voltada para os Seres Humanos”. Nairah ainda diz que “as pessoas estão cansadas, precisando se reconectar com propósitos mais abrangentes que a carreira” e que “a pandemia reforçará essa demanda por foco na saúde psicológica, emocional e física”.
As empresas que perderem o foco no ser humano no Pós Covid-19 estarão praticando um retrocesso.
Olhemos para dentro de nós e das organizações que fazemos parte, identifiquemos e gerenciemos nossos Ativos, para que possamos sair dessa crise capazes de atuar frente as mudanças que vieram para ficar.
 
 
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*https://propmark.com.br/novo-coronavirus/20-marcas-mais-lembradas-pelos-brasileiros-na-pandemia-segundo-pesquisa/
 
**https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,magazine-luiza-lidera-em-imagem-na-crise,70003276582
 
***https://www.saopaulo.sp.gov.br/noticias-coronavirus/sp-arrecada-r-3676-milhoes-em-doacoes-do-setor-privado-para-combate-ao-coronavirus/
 
****https://www.meioemensagem.com.br/home/comunicacao/2020/04/15/bruno-brux-criatividade-sem-empatia-e-so-capricho.html
 
*****https://www.hsm.com.br/como-cuidar-da-saude-mental-e-fisica-da-sua-equipe/